Espiritualidade sem contexto

No dicionário Priberam "Espiritualidade" é definida como "qualidade daquilo que é espiritual [do espírito ou relativo a ele]". Contexto é relativo ao "ambiente".

Existem várias formas de abordarmos o Espírito e consoante o Contexto, as abordagens e linguagem podem diferir. O Qi Gong é espiritual (se for usado nessa vertente). Assim como o Yoga. O Cristianismo, Budismo, Taoismo...  E tudo relativo ao Espírito. 

Lembro-me de ler Jung, a propósito do seu estudo e debruçamento sobre as culturas asiáticas, e ele referir como nunca entenderíamos na totalidade essas culturas exatamente pela falta de contexto. Somos europeus, com uma educação, na maioria dos casos, cristã, e isso cria uma distância no entendimento de muitas mensagens que recebemos que não pertençam ao nosso contexto.

Haverá sempre um filtro pelo qual atravessaremos a informação - o filtro do europeu, cuja a cultura lhe confere determinadas características - e que, da mesma forma que essa informação recebida transforma o recetor, também o recetor, filtrando a informação, acaba por a transformar.

Para estudar a língua de um país é necessário conhecer a sua cultura. Conseguiremos nós imaginar o que é necessário para nós entendermos na íntegra a linguagem de um monge taoísta? De um médico chinês? Os "medicamentos" são diferentes, as línguas, a educação, a forma de ver a saúde, a doença e a vida, tudo difere.

Se há coisa que senti em mim, no primeiro ano de estudo de Medicina Chinesa, foi uma enorme mudança na minha personalidade: porque é inevitável abrires-te a um novo contexto e não seres transformad@!
Da mesma forma acontece que absorvi (e absorvo) a informação com os meus filtros, transformando-a. Quando a reproduzir, já não é a mesma informação que recebi, porque será sempre com o meu filtro. 

Voltando ao espiritual: muitas vezes vemos a "espiritualidade" e o "desenvolvimento pessoal" de mãos dadas como se fossem o mesmo. Ao longo dos tempos, tenho observado e sentido como o europeu (eu inclusa) - mais racional, linear, individualista, hierárquico (o que não significa pior) - reproduz abordagens "espirituais" filtradas pelo seu contexto e características. Olhando para todas as religiões e filosofias que conheço, questiono-me: qual o objetivo final de cada uma delas? Independentemente dos caminhos ou linguagem usados, vejo que é transversal: Melhorarmo-nos enquanto comunidade. Servirmos.

O "desenvolvimento pessoal" surge aqui como um termo para definir uma prática para nos aproximarmos da Espiritualidade. Mas será o "desenvolvimento pessoal" o fim em si mesmo? O que é para ti "desenvolvimento pessoal"? E o que implica o "desenvolvimento pessoal" ? Inclusão, conexão? Separação, hierarquização? Existe um "nós" e um "eles" separatista? 

Uma espiritualidade sem contexto, é uma ESPIRITUALIDADE VAZIA de lugar. É uma espiritualidade solitária, sem raiz, dessensibilizada, ostentada, sem humildade no servir. Será que existe hierarquia na Espiritualidade? Será que usamos a "Espiritualidade" para nos unirmos e melhorarmos? Ou para fugirmos do nosso contexto e nos isolarmos? Será que existe "Espiritualidade" fora do contexto? O que te move e motiva? Qual é o teu fim?

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